Passarada

 O dia desbrava o fio de esperança,  um horizonte encarnado pela navalha, que corta e sangra sob os pés um caminho.  Será que acordamos? E o dia raiou no agora? Ou talvez estejamos no instante da nossa mente, que mente tão bem, e vai e vem no sonho que me sonha, mas ficando parada sobre o tempo, esse que vai e vem no mesmo lugar. O do sempre. É isso eterno, esse sono escurecido lentamente pela luz, que soletra nos dois sentidos: o do dia e da noite, e que repetindo, se  faz o ser de sempre, no céu bipolar, mas que o tempo todo reflete o eu. O um, que em muitos, faz nós, que se atam cegos, em miragens e Ilusões,  no espelho das águas de oásis no deserto.  Cada um conectado, de gota a gota, tramando o mar de finas peles, para vestir as raízes do ser, se distorcendo em flores de narcisos.  No ar suspenso de emoções, perfuma e dispersa, entre tantos quereres, se vão ao ser em vão, suavemente desfigurados pela mente, que mente o tempo todo. O Tempo do todo que se foi e se vão, avoados quero-queros, cortando a carne, no cerne do céu bipolar.  Só mente,  travestida de pequenas penas, sem um fio de juízo, e de verdade.

Anúncios

a la bios de pétala

Esperneando dentro de um broto,
a delicadeza tenta vir ao mundo,
em silêncio tão profundo,
que um olhar é capaz
de eclodir em flor e fruto.
Como um beijo roubado
e guardado a sete chaves
no encanto daquela última hora.
Aquela em que a esperança,
era apenas a ideia de um beijo.

Sujeito

Ele delira,
em planos superiores,
Deleita-se na sua pífia
de si sabores insossos.
a língua minguada,
uma palavra polida,
sem luz e sem vida.
Seus versos repetidos
a exaustão, que convença?
Em quaisquer amores
tua pele seca marcando
a pele do sonho roubado
em um parasitismo egoico
que te alimentas
de linhas mal escritas.
Teu deslumbre sem graça,
desdenha do teu falso nexo
e desnuda a tua essência ôca,
que serve aos anseios inferiores,
que nascem da tua perfeita covardia.
Dessa carne decomposta,
reciclável e  exposta,
bagaços de memórias
sem raízes,
e a putrefação da alma.

segunda pele

Agora vou viver dentro de um quartinho pequeno e apertado. Sem nada dentro, só um pouco de chá, talvez, uma luz, o silêncio, e um infinito de palavras. Todas mudas, a serem plantadas nas paredes. Resolvi me casar com as palavras. Todos os dias vou vestir meu corpo delas. Vou passá-las em mim para ganhar um aroma de profundeza, e  misturar-me a metáforas, metonímias, onomatopeias,  e centopeias dedilhando sob a minha pele. E por todas as curvas e obstáculos em meu corpo, que se  abram as janelas para a viva carne, visceral. E cada palavra cravada no peito, que grite a mais feroz das paixões, ou uma brilhante ideia, que seja um pulso na ópera do meu sonoro silêncio, tocado por sangue e lágrimas. Eu, enfim, quero morar dentro da poesia, e  respira-la em mim. Quero sentir a paixão através dela, ver minha alma em todos os versos, para só arder linguagem, rimar repentes românticos, e com o amor, viver no ar da poesia.

pedra azul

Só queria dizer que te amo,
porque não sei existir
longe desse amor.
E por mais insignificante
ou até infantil,
ainda é esplêndido,
a beleza com que vejo
essa verdade dentro de mim,
Uma pedra azul.