Deleitos

Remédios nem sempre são doces, nem sempre são amargos.
As vezes eles tocam sonoramente, ou rimam poeticamente.
Alguns são feitos de fonemas, ou de toque ou do beijo.
Alguns é que nos tomam, de gota em gota.
Remédio é solução para um estado doente, do corpo ou da alma, e que a gente bebe ou se afoga.
Quando nos entorpece, tem efeito balsâmico, como um êxtase, de paixão, ou alegria.
Remédio pode se comprimir em um conjunto de coisas boas em nossa vida, que valem a pena e não  apenas um valium.
Quase sempre encapsulados pela mais poderosa química, o amor, que tem alcance a um nível microscópico e profundo, da alma!  Capaz de curar as mais severas feridas, principalmente aquelas que latejam silenciosas, nos deixando entregues a um corpo moribundo e inerte.
E nessa realidade que nos envolve em uma infinita panaceia do Tempo, onde emergimos inconscientes de todas as possibilidades da criação divina, mas que sempre estão em toda parte, o que se acredita, a fé naquilo que nos cura, é também aquilo que nos opera.

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Que tiro foi esse?

Estávamos frente a frente, eu e aquele olhar, como navalha a me cortar a alma. Não sei se a lâmina era talhada no ódio, ou no amor, sei que parecia afiada na minha testa. Era isso que o olho mostrava, a porta para seguir com o destino, sempre correndo, se caindo, sempre seguindo em frente,  atravessando os portais do futuro. Mas num piscar de cílios, um frio cortante poderia atravessar-me a espinha e traçar-me ao abismo,  no banquete ao Tempo, que às vezes,  engorda-me com migalhas, ora um insight, ora um gatilho, disparado no meu coração. E em milésimos de segundo, a vontade já era a velocidade da luz. Mas então, olhei para aquelas horas perdidas dentro de mim, e desafiei o relógio ao silêncio de tic e de tac. E por um segundo, um único segundo, o Tempo finalmente parou: O silêncio absoluto acertou-me em cheio, bem no meio do vazio, e tudo foi nada num instante, e cabia tudo dentro de uma caixa, por onde passava um furo atravessando o meio da minha testa, e formando um buraco negro, que ia em direção ao céu, seguindo até fora da galáxia. Morri? Estou Viva? O que me diz o Tempo do que sou?

Apnéia

O conhecimento dói,
contando verdades.

Pensar fere a memória.

Remedio:
Doses de irracionalidade.

Então, não penso,
viva o amor!
e já perco-me,
e sinto muito.

Fico em apnéia,
mergulhando no tempo,
sem Razão nenhuma.

Caindo…

No silêncio, divago
em horas ausentes
nas ondas do vento.

Releva o sal,
que em mim,
se cristaliza.

O Tempo…

Vai feito pulso elétrico,
e rastio de pólvora.
No vácuo!

Passa rápido,
o remédio do Tempo,
e minha irracionalidade.

Passa bem no meio de mim,
Como um pássaro de fogo,
Uma fênix que me devora.

Inspira meu ar,
devolve-me os sonhos.

Passa voando,
batendo suas asas,
fazendo ondas,
na malha do espaço…

Eu não,
O Tempo.

Como uma pedra que caio,
se penso relembro,
o conhecimento dói.

Volto e vago,
no esquecimento,
até onde vôo.

Vou até restar o respiro das estrelas,
dentro do meu quarto escuro,
quando então só anoiteço.

Não era eu

A quanto espelho servi
sendo qualquer coisa
bem avessa de mim.
Por fuga ou carência,
refiz da vida a demênicia
meu verso curto
de memória escrita,
meu tanto de esquecimento.

 

medíocre.br

Nos rostos figuram bestas,
que levantam todas as manhãs,
sob o manto da mediocridade.
Espalham suas mentes miúdas,
no solo arado tedioso de si.
Em sementes tão pequenas
do vir a ser grande de estupidez
nutridas na felicidade ingênua,
onde fincam raízes na ignorância.
Corrompe os ares como um galo,
que canta repetindo o raiar do sol,
uma navalha apontada pro futuro,
que sangra a brasilidade decadente,
e cai em luz de que pouco nos serve,
por tanta terra que nos cobre,
dessa farta mediocridade,
que no vento vai de vento em polpa,
amargando frutos de miolo mole.

Passarada

 O dia desbrava o fio de esperança,  um horizonte encarnado pela navalha, que corta e sangra sob os pés um caminho.  Será que acordamos? E o dia raiou no agora? Ou talvez estejamos no instante da nossa mente, que mente tão bem, e vai e vem no sonho que me sonha, mas ficando parada sobre o tempo, esse que vai e vem no mesmo lugar. O de sempre. É isso eterno, esse sono escurecido lentamente pela luz, que soletra nos dois sentidos: o do dia e da noite, e que repetindo, se  faz o ser de sempre, no céu bipolar, mas que o tempo todo reflete o eu. O um, que em muitos, faz nós, que se atam cegos, em miragens e Ilusões,  no espelho das águas de oásis no deserto.  Cada um conectado, de gota a gota, tramando o mar de finas peles, para vestir as raízes do ser, e se distorcendo em flores de narcisos.  No ar suspenso de emoções, perfuma e dispersa, entre tantos quereres, se vão ao ser em vão, suavemente desfigurados pela mente, que mente o tempo todo. O Tempo do todo que se foi e se vão, avoados quero-queros, cortando a carne celeste, no cerne do céu bipolar.  Só mente,  travestida de pequenas penas, sem um fio de juízo, e de verdade.

a la bios de pétala

Esperneando dentro de um broto,
a delicadeza tenta vir ao mundo,
em silêncio tão profundo,
que um olhar é capaz
de eclodir em flor e fruto.
Como um beijo roubado
e guardado a sete chaves
no encanto daquela última hora.
Aquela em que a esperança,
era apenas a ideia de um beijo.

Sujeito

Ele delira,
em planos superiores,
Deleita-se na sua pífia
de si sabores insossos.
a língua minguada,
uma palavra polida,
sem luz e sem vida.
Seus versos repetidos
a exaustão, que convença?
Em quaisquer amores
tua pele seca marcando
a pele do sonho roubado
em um parasitismo egoico
que te alimentas
de linhas mal escritas.
Teu deslumbre sem graça,
desdenha do teu falso nexo
e desnuda a tua essência ôca,
que serve aos anseios inferiores,
que nascem da tua perfeita covardia.
Dessa carne decomposta,
reciclável e  exposta,
bagaços de memórias
sem raízes,
e a putrefação da alma.