Arquivo para Setembro, 2008

Acordes

Postado em inverno em Setembro 30, 2008 por carol montenegro

Tenho sonhos reais,
Que nunca sonhei,
e que visitam minha casa,
somente.

Vem com o cheiro doce
de um buquê de versos.
E fotografias recortadas
desse sonho que não sonhei.

Vem de outro século
Cheio de cinzas e marrons.
E dele trago um vazio,
uma memória rasgada,
Que não me lembra nada.

O sonho nunca sonhado,
Lança-me nos olhos
Um esboço desbotado
de algo que me pertence,
ou a qual eu pertenço.
o verso ou inverso,
que com certeza não é meu.

Expulso da vista este borrão,
De sonho visitante,
para bem longe
de qualquer coisa suspeita.
E até tudo clarear,
não levanto da cama,
não guardo o sonho,
não faço café,
e não projeto nada para hoje.

REciclagem

Postado em outono em Setembro 25, 2008 por carol montenegro

A mãe de todos os medos é a morte.
E o medo da morte surge quando se evita falar ou saber quem ela é. Isso alimenta o medo, que alimenta a ignorância.
A morte não é o fim de tudo.  Seria completamente desfuncional a morte ser o fim.
Alguns temem porque imaginam um julgamento de suas condutas, mas ninguém será julgado, nesse processo não existe juiz fora da sua própria consciência. Nada de julgamentos, só mesmo uma separação de grãos.
Nada na natureza é inútil. Tudo tem uma finalidade e uma função, é uma cadeia de ciclos onde tudo está ligado e num processo de transformação, e nessa cadeia  existem dois pólos: a vida e a morte. A morte nada mais é do que a transformação da alma e quando a alma  se transforma é natural o corpo físico acompanhar essas transformações. Como dizia Lavoisier : “Na natureza nada se perde, tudo se cria e se transforma”. E essa é a mais pura verdade.
Nós somos parte desse processo cíclico de reciclagem, que é atemporal no espaço não físico, e este só percebemos através de um “sexto sentido” ou intuição.
Morrer, na verdade, é o fim de uma etapa nesse sistema evolutivo, é como um dia que se vai e a noite chega, fechamos os olhos, para nascer em um novo dia de luz.
Quando se percebe o que a morte na verdade é, todos os outros medos ficam órfãos. Sem o medo da morte, todos os outros medos perdem seu sustento e não se desenvolvem, morrem sem força.  E os medos se transformam no seu outro pólo que é coragem e força.

Passo

Postado em inverno em Setembro 19, 2008 por carol montenegro

Nessa estrada que se caminha só,
Quanto menos peso se leva,
mais longe se chega,
mais leve se pisa
e há quem consiga voar.
não tenho nenhuma bagagem,
Nem nada nas mãos.
Dessa estrada não levo nem pó,
nenhuma culpa, nenhuma mágoa,
nem qualquer coisa ruim,
que pese mais que uma borboleta.
Dessa vida que me leva,
Não levo nem mesmo a vida.
Só o amor nas asas desse tempo,
Que me cabe pelo caminho.

Um dia claro…

Postado em primavera em Setembro 17, 2008 por carol montenegro

O dia está claro,
Ontem mal se foi,
O sol vem radiante.
Milagres do tempo.
No céu sem nuvens,
Vozes cantam luzes,
E dissipam a noite.
Revelam a bruteza
guardada nas almas.
Nada me apavora,
Nem me impressiona.
Meu passo continua leve,
e meus olhos fundos,
saudosos dos sonos
não cansam nunca
observam a natureza,
e sem procurar entender,
simplesmente entendem.
No alto do coração,
As montanhas silenciam
Avalanches e deslizamentos,
A verdade pelo caminho,
Sustenta e fica imóvel.
Tudo é essência,
e diante o dia claro
toda alma se ilumina.

o jogo da vida

Postado em primavera em Setembro 8, 2008 por carol montenegro

Viver é um mistério, tão revelado quanto a natureza.
Tão lógico que parece não ter lógica nenhuma.
E só se ver a lógica quando se entrega ao que não tem lógica.
É tudo um jogo de inversões. De duplos, duais, opostos, complementos, imagem e reflexo.
A vida oscila de um extremo ao outro, gerando o tempo e um ciclo completo significa o nascimento, a gestação de qualquer coisa. Essa é a lei de tudo que existe, é a lógica da existência, como uma equação matemática onde dois mais dois é igual a quatro. Existir é igual a viver nessa órbita. Por isso tudo passa e volta, sobe e desce, nasce e morre, para nascer de novo e novo em outra forma de vida, de existência, porque os ciclos se completam, tudo é gerado e a cada nova gestação existe um ganho de experiência, de renovação, e o que não foi melhorado volta no ponto em que parou para ser retrabalhado, esse é o destino de tudo. Esse caminho para a melhor forma, uma forma original.

Nessas voltas que a vida dá, e a medida que o tempo passa, a vida vai se transformando, e tudo vai ficando ainda mais verdadeiro e original. Porque o destino de todo o universo é ou deverá ser a igualdade, a união. E só o que é verdadeiro realmente existe, a mentira é uma ilusão. Quem mente para si ou para os outros, no final das contas, estará no lado das coisas que não existem. Ou será como uma miragem, um reflexo, pura ilusão de ótica.

Viver é um jogo de entendimento e aprendizado, porém um jogo difícil porque o que os olhos vêem, as vezes o coração não sente. E é justo nesse instante em que perdemos o fio da verdade.

Então, não existe receita, e a única coisa que se pode fazer para viver da melhor forma é buscar tudo aquilo que é verdadeiro, em nós e em todo o resto. Ao ver, ao sentir, ao saber, buscar a verdade nas percepções, como quem luta pela própria vida. O que é verdade para mim, talvez não seja para o outro, porém existirá sempre uma verdade fundamental que me une ao outro, a verdade do amor, o desejo do bem embutido nessa verdade, porque é o amor a maior fonte de verdade da existência.
Mas o amor não é reflexo, o amor não se cria por alguém, se tem amor e se dá esse amor. Amor não é paixão. Quem ama pode se apaixonar ou não. E mesmo não se apaixonando, pode amar para sempre. Porque o amor existe em todo lugar, se ama a um filho, a um irmão, se ama um pai, uma mãe, um amigo, se ama um animal de estimação, se ama o trabalho, ou qualquer coisa. E tudo que a gente ama é ligado a nós, a nossa vida, de alguma forma.

Flor de luz

Postado em primavera em Setembro 5, 2008 por carol montenegro

A primavera anuncia
o brilho da bela menina
Que traz no vento
o cheiro doce de manhãs,
e no olhar um intenso
mar infinito de estrelas.
como raios de sol,
saindo pelas janelas da alma,
Da menina flor de luz.


Para meu japinha e minha chinesinha.

Jardim De Lírios

Postado em verão em Setembro 4, 2008 por carol montenegro

A primeira vez que vi Platão fiquei paralisada, a emoção era tanta que mal conseguia segurar a alma. Era como se estivesse diante um astro ou uma estrela de filmes oníricos.
Ele estava magro, com o bigode penteado, cabelos também aparados e um terno cinza. Fiquei pensando comigo mesma, onde ele teria arrumado aquele terno.
Muito falante, andava por um grande pátio, com alguns bancos, jardins, por onde muitas pessoas caminhavam por entre flores e de lírios.
Em volta de Platão, algumas pessoas o ouviam falar, falar, com um fôlego sem fim.  Pensei: Esse aí nunca foi fumante.
Alguns comentavam que ele, Platão, havia se tornado eterno e por isso estaria ali para sempre, este era o seu lugar no céu.
Era inevitável a aproximação, quem conseguiria passar por Platão e não ouvi-lo nem que fosse por um instante?  Então cheguei mais perto.
Não sei bem qual o início da conversa, mas ele dizia:
” o destino dos homens é a degradação contínua no processo de reflexão das idéias, que por seguirem a luz acabarão na escuridão.”
Fiquei pensando que luz seria essa que Platão se referia, mas não quis interromper, já que peguei a conversa no meio do caminho. No meio do caminho me deparei com esta afirmação que para mim ainda precisava de esclarecimento. Seria a luz do esclarecimento? Seria a luz refletida nos objetos idealizados? Não sabia.

Então Platão pegou um espelho no bolso do paletó, novamente o pensamento de onde ele havia conseguido aquele terno me veio a mente.
Na mesma hora ele me olhou e disse: “Você me vê vestindo terno, mas quem me veste o terno é você.”
Então, apontando para o espelho disse: “Esta é a luz a qual me referia, a luz do reflexo.”

Aquelas palavras me soaram por dentro quebrando espelhos, e enquanto isso o terno se desfazia até o ponto de idéia. Foi quando vi que Platão só vestia o próprio pensamento.
Depois disso, ele continuou a caminhar, falando, falando e os outros o acompanhando, eu, absorvida pelo pensamento do terno, acordei vestindo um mundo de idéias.

Assim sendo…

Postado em verão em Setembro 3, 2008 por carol montenegro

O amor é filho do tempo,
A justiça filha do amor.
O tempo é filho do céu.
E o céu de todo mundo.

Ressalva

Postado em inverno em Setembro 2, 2008 por carol montenegro

Quando tudo parece noite,
Nada que eu vejo me salva,
Nada que eu sinta me dissolve,
As palavras calam dentro de mim
vem a música e me liberta a alma.

o sol

Postado em verão em Setembro 1, 2008 por carol montenegro

Falta metade do caminho,
o encontro ao centro,
a verdade dentro do sonho.
Falta um lugar para mim,
E esse sentimento sem fim.
Quantas manhãs esconderão,
Nos cantos de outro quarto,
O sonho que ainda não sonhei.
De que lado estará o sol,
Enquanto durmo e sonho
a manhã de raios azuis,
e cabelos dourados.

O sol, o sol!

Nascente em mim,
como um rio a queimar,
nos braços das águas,
correntes que me abraçam,
ao longo do tempo repartido.
Eterno mergulho em sal.
e o sol,
nasce do mar?
nasce de mim?
Nasce?