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velação

Não existem palavras
atadas em nós
no escuro dos olhos.
só a mudez grita
o alto silêncio
em cordas bambas
da alma que se equilibra
desfazendo-se dos seus véus
como uma dançarina
revelando horrores
diante do espelho.
Esse é o fardo
das coisas grandiosas,
encasuladas no silêncio
quando o pensamento
pisa sobre as telhas
como um gato sorrateiro
cortando a noite.

O retorno

O tempo segue seu curso
dedilhando os trilhos
na rota do trem
e move a roda viva.
Nessas idas e vindas
volto ao ponto de partida
onde deixei meu entusiasmo
na luz de uma lanterna
ao desbravar meu mundo.
Nos giros, girândolas ou girassóis
trannsmutando um jardim ou um salão
onde agora minha alma sincroniza
e dança a música que toca
em outras novas estações.

prosopopéia

o relógio não sabe amar
quando o coração bate
ele pára seu badalo.
Seus ponteiros são rígidos
braços que não abraçam.
o relógio não sabe do giro,
na cabeça quando se ama,
apenas o seu giro milimetrado
o relógio não governa o Tempo
porque o Tempo é o destino
que o relógio desconhece.

madeira

Tudo passou
num segundo
ganhei 10 anos.
Morri tanto
que já nem sei
se vivo ou morto.
Pulso de novo
de velho
de sempre.

cacocefaloscopia

Não me chama
com fogo
ardente nas  veias
a jorrar silêncio.
minha boca
calada na noite
cospe o crepúsculo
vital do beijo mortal,
cravado em ferro
de cores vividas e mortas
sobre um entrave encruzilhado
no meio do nada
entre duas bandas
no quadrilátero da alma.
De um lado ao outro
o tic-tac toca tambores
madrugando as manhãs
no pensamento e mente
sonhos e sonhos e sonos
se virão,  se verá verão
de um sol a chorar
tempos inversos.

anexo

Acordei assim
de repente
o silêncio gritando
pela janela
se abriu
foi só o vento
pensei alto
de tão alto
caí no sono.
Lá dentro
encontrei o eu
sonhando comigo
era tarde da noite
e já clareou
aqui fora
e eu comigo
ainda estão dormindo
dentro de mim.

metamorfose

Não desprezo minhas tristezas
acalento cada lágrima
de uma dor recém-nascida.
Cada uma é um verso
que quando crescer
será a menina  poesia,
deixando  meus rastros .
As tristezas não doem,
é um voltar-se para dentro,
de casulo na alma
andam na ponta dos dedos
como palavras que rastejam
em metáforras, onomatopéias
e feito as lagartas
um dia voa pelo espaço
como as borboletas
e vira arte.

Cosmose

As estrelas se movem
circundando o infinito
dentro de mim.
Meteorica mente
me vou a voar
querendo me perder
no mesmo espaço
onde me encontrei
a olhar o infinito.

baile

No salão verde
o sol me abraça
ensaio passos com o vento
se a natureza quer dançar
rezo para não pisar
no pé de serra.

Marco zero

Minhas dores são voláteis
não deixam vestígios
nem riscos.
A cada novo despertar
uma página em branco
sem passado
que embrulha um presente
a ser dado-me  algum dia.
Quem sabe…

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