Por tanta humanidade
se mata a esperança
que morre nas ilusões.
De tão pouca humanidade
se morre a fé
até sucumbir o homem
em suas faces e facetas
tornando-se alegorias
e as roupas que vestem
Muitos já foram
vestindo sombras.
vultos vivos
antesala
É no silêncio
onde me encontro
lambendo as feridas
e derramando sobre elas
o efeito balsâmico
de um profundo amor
sem palavras, sem sentido,
e com tanta razão
que nem o céu consegue cobrir.
É nesse silêncio que te guardo
aguardo em queima,
líquido e fluido para dentro
do meu sono sem sonhos,
do meu olhar comedido
nas horas das pedras,
em riscos e ciscos grafite.
lanternas
O mar cabe em conchas
que no fundo, no fundo
se guardam sonhos,
que doem ao nascer
e criam ondas ao morrer,
como uma ressaca
mal curada por falta de luz.
manto
Do cálice à ponta dos pés,
tenho escrituras
de pérolas negras,
em conchas brancas,
banhando-se em suor.
E o nada nas veias.
Paradigmas transitam
pelo meu corpo
como células
em reprodução.
Reviso meus vistos
por uma performance
que me traga inícios.
Babilônia
Incomoda-me o teu sono,
na verdade, me agride.
Como me deixas
falando sozinha?
Acorda por um segundo
e existe.
ponto de cruz
Digno amor
a quem devoto
meu ar
que transformado
em árvores,
enche-me de esperança.
Que por ventura,
quimera e simetria
movimenta as flechas
entre os olhos
que em mim ferem,
até outras memórias.
Cria-me dois anjos
ensimesmados comigo,
em pulsos no meu coração,
enlaçando os dois,
no ser de gênero único.
Descobre do céu
as nuvens de chuva
que preenchem emoções,
por ângulos e cargas d´água
de fluir constante,
feito em ondas e tempo.
A penas se equilibram
universos e gotas pequenas
de mim, de um e de outro.
E nas formas diferenciadas
vivenciam-me em tom
de pele, e fala e áurea.
E assim impermaneço
indo e beirando
as notas da música,
que me toca,
no tempo do desejo
que soam e suam
dos pequenos vazios.
transgressão
Não convidei a entrar na minha casa esse cheiro de passado a limpo. Ainda embrulhado no branco da naftalina e em teias do meu juízo. Que por sapiência do meu adorado estranho se apadrinhou dos meus sonhos. Não quero dar beleza a nenhum pensamento desvairado que por ventura atravesse meus panos brancos. E isso é coisa de pele, fina, flor, que pode refletir o mais secreto das régias vigentes cardiocármicas. É meu puro niilismo, que mergulho por teimar contra o tempo. Porque me dói amar o amor e sentir nas veias o tempo das coisas. E de todas as coisas. As coisas sem sentido, isso é uma redundância, mas gosto de sustentar a insignificância dessa palavra como se ela fosse eu, porque sou como as coisas. Pelo fato de que existem frascos sem rótulos, onde cabem só uma essência de ser humano.
O verbo
Verbo não é palavra,
é um desatino que a gente cospe
sem nem sentir,
e sem sentido não se move.
Morre sem fé.
Vive o tempo de um eco.
O verbo transforma e age
como se fosse instinto.
O verbo não se nega
não tem duas caras,
É determinante.
A palavra usa véus,
se oculta e mente,
enquanto o verbo
só torna verdade.
sense
Só posso dizer
amor
que acalente-se
num sono
tão profundo
quanto as cores
nos teus olhos
querendo tirar
o véu nos meus,
porque Deus
é o oculto
naquilo que nos faz
ser semelhante.
Niilismo
A existência é um aforismo.
Homens querendo provar
que merecem a eternidade
porque pensam. O que?